terça-feira, março 10, 2015

Pior relato: a desesperança


Ontem teve o panelaço, amanhã a revolução. Quer dizer, em cantos do Brasil as panelas viraram personagem central. Não em todos os lugares, apesar do aparente descontentamento geral. A impressão que tenho, de que ninguém está contente com o governo, pode ser coisa de novela; pouco antes do Jornal Nacional. Não estou contente com o governo também, mas nem por isso exijo o golpe. Por isso, há em mim um sentimento de derrota. Um sentimento que me diz que aqui a democracia perdeu a oportunidade. Não que a ditadura trará benefícios, muito pelo contrário. Quero dizer que a democracia regrediu. Transformou-se num aprendizado infantil na sociedade: barulho de panelas, cuspir na presidente; elogiar a reformulação no caos: estamos longe da maturidade.

Fui apedrejado em rede social pública quando disse que achava um absurdo a vaia recebida por Dilma no estádio de futebol, diante do mundo. Não era coisa educada; ainda que muitos achassem as vaias justas. Realmente a insatisfação e a forma que exigimos melhorias é um tanto complicada. Mas é nossa maneira, não arrumamos outra. Nossa maneira de dizer que não precisamos nem ouvir, já sabemos a resposta. Muitos daqueles que se debruçaram nas janelas, fazendo barulho, não souberam nem o teor daquilo que a presidente teria para dizer. Temos essa relação complicada com o poder público, nunca nos amamos.

Não sou favorável ao segundo mandato: a alternância de poder faz o povo e os próprios políticos se reciclarem em suas exigências e comportamentos. Após um primeiro governo de Dilma apenas razoável, seria interessante à esquerda um período sabático. Há quem diga que a esquerda, assim como a oposição; precisam de períodos de descanso; para que não tratem seus ideais com descaso. A divisão dos votos pode ter mostrado isso: a maioria não estava contente, ainda que a maioria tenha eleito. Os números, do jeito que foram, fragmentaram a eleição como se desse ao perdedor o direito de exigir a contagem de votos, a reeleição antes do tempo; o golpe na lógica numérica do resultado. Nunca na história deste país, o cinquenta por cento mais um foi tão questionado.

Com tudo isso, não concordo com o Cavalo de Tróia dentro da minha casa. Uma maciça sabotagem ao governo. Não vejo com bons olhos a tentativa de dar significação maldita ao PT e bendita ao PSDB. O jogo político, entrando de forma descarada, com todos os privilégios; parece mais golpe que ajuste. Quero os corruptos na cadeia, quero a reforma política; não concordo com tantos nomes; fazendo da coisa pública privada. Mas quero principalmente a imparcialidade, a justeza das informações; o critério equiparado. É bem verdade que no mundo, mesmo os países mais desenvolvidos; essa imparcialidade não existe. Mas lá, pelo menos, ela é mais clara, definida; sem qualquer desvio mal caráter.


Cabe a população a busca pela informação, a análise dos fatos. Verão que os vilões dessa história nem sempre são tão terríveis, e que os mocinhos, nem sempre querem nosso bem. Principalmente na política, o bom e o mau, são expressões relativas, eticamente desajustadas; parcialmente compreendidas. O panelaço deveria sair nas ruas, não pelos vinte centavos; nem por causa da Petrobrás; mas por todos os privilégios e anormalidades desse funcionalismo público, político; que causa danos aos menos favorecidos desde da criação da humanidade. 



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quinta-feira, janeiro 22, 2015

POLITICAVOZ: Não sou conduzido, conduzo.

 

São Paulo num aniversário sem qualquer festa. Terá um bolo, cantaremos parabéns; beberemos alguma coisa. Mas tudo será fúnebre. Uma festa para cobrir o protocolo histórico, mas sem qualquer comemoração. São Paulo não tem qualquer motivo para festa. Não há felicidade, amor e humildade para se desejar ao aniversariante. Vivemos uma crise. Aliás, várias crises que podem não estar ligadas, mas estão correlacionadas. São Paulo é um efeito borboleta complexo. Vamos chegar ao festejo com roupa de gala, mas cada um dos convidados, ao seu estilo, carregará uma justa e diferente frustração.

A cidade que me deu a vida, não me dá abrigo. Deu-me a liberdade, mas não a escolha. Deve-me, portanto, sinceridade. Em cada ponto de ônibus, hospital, posto de saúde; deve me dizer a verdade. Cidade extremamente cara em seu requinte, pobre em sua individualidade. Cada um por si, dinheiro sonho de todos. O carro, o tênis; o perfume nas Madalenas, Jardins; Afins e Alamedas. Vamos beber gasolina qualquer dia desses. Cidade que cheira fumaça, diesel e cigarro sem filtro. Beleza que Narciso acha feio nesse espelho do resto do Brasil: aqui somos um pouco de tudo e quase não somos nada.

Em São Paulo, de “Lobatos”, “Alvares”, “Tarsilas”, “Andrades” e “Mários”; não há espaço para devaneios. Sonho aqui é fuga. Êxodo para um lugar melhor: Rios que não correm apenas em janeiros, fortalezas de nossas escolhas; qualquer um salvador. Vamos para um porto alegre desse nosso belo horizonte que é fugir da poluição, dos carros e dessa multidão ao nosso lado. Mas não: amamos essa bagunça, amamos perder a noção, amamos sermos exatamente como somos.

A semana moderna é o muro grafitado. Crônicas diárias da violência, dos meninos nos faróis; da nossa solidão e desumanidade. Não nos julguem; amigos brasileiros, somos muito mais sozinhos que vocês imaginam. E nesse orfanato; Pedro brigado com Paulo; que desconfia de Deus e sua chuva. São Paulo, na descrença, pense em se tornar novamente Saulo, caindo não apenas do cavalo, mas do trono que sempre quis para si. Como se fosse o melhor povo, escolhido e que sabe escolher (votar). Uma locomotiva que virou carroça sem freios; e que tem o destino triste de morrer com sede e na brasa do seu rigoroso verão.

Mas, com essa festa toda; melhor não pensar em coisas ruins. Faremos a festa, sim. Trazendo a cultura de todo o lugar do mundo, pois a festa não é nossa; a cultura e a comida já não é mais nossa exclusividade; mas dinâmica e orgânica. Nossa cultura de ontem com hot dog e cinema; hoje é BBB e sushi congelado. Amanhã? Quem sabe quadros no MASP e Food Truck. Comemos bem, bebemos bem; trabalhamos muito e dormimos mal. Mas adoramos a sexta-feira como refúgio; e feriados como presente divino.

Pena que nosso feriado este ano cairá num domingo.



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quinta-feira, janeiro 08, 2015

A noite que dormi na Sunset Boulevard



Pássaros? Não havia. Somente nuvens negras de um final de tarde de verão. Elas afugentam qualquer animal que voa. Nuvens de dia de verão, com temporais. Aquilo tudo me fez lembrar quando eu tinha doze anos. O mesmo pensamento desde os doze anos. Aquele não foi um ano especial, como nenhum outro que eu tenha vivido. Mas, alguma coisa aconteceu quando eu fiz doze anos que eu não me lembro. Mas está dentro de mim, silencioso. Talvez a puberdade. Não sei quando cheguei à puberdade, só me lembro de quando me apaixonei pela primeira vez, e isso foi com dez anos. Naquele dia, da paixão da inocência, as nuvens eram de verão também, mas não eram tão negras.

Houve um tempo em que os pássaros não temiam absolutamente nada.

Na rua os carros passam lentamente. Minha cabeça tenta controlar o movimento de todos eles: ir e vir. Pessoas, carros e animais; tento dominar todos eles. As nuvens sempre se movem lentamente, não me preocupo com elas. Mas as pessoas? Estas sim precisam do meu comando, que segue seu caminho como numa espécie de telepatia. Não é telepatia, é alguma coisa muito próxima a isso. Eu olho para as pessoas e faço com que elas caminhem. Que peguem uma bituca de cigarro no chão, olhem para o alto e se despeçam com um aceno. Que sorriam para mim, isso é importante lembrar. Algumas se apaixonam, mas é muito raro.

Outro dia, um acontecimento diferente: Um carro parou bem na minha frente. Uma mulher alta e com cabelos lisos sai do carro. Suas pernas, seu rosto; tudo parece conhecido. Só o perfume que eu nunca tinha sentido. Não é ninguém da televisão, tenho quase certeza. Ela fecha a porta. O carro segue seu caminho (que eu desconheço). A mulher sobe na calçada. Pula calmante a água suja que corre para o esgoto. Ela anda com dificuldade por causa do salto alto. Mulheres sempre são charmosas usando salto alto. A imagem se repete pelo menos mais três vezes em minha cabeça: carro chega, mulher salta; caminha. Ela some. Também não sei para onde ela foi.

Alguma coisa aconteceu comigo quando eu tinha doze anos.

As nuvens? Feias. Cheias e negras. Daqui a pouco vai chover. E a chuva que chega ao final da tarde, sempre tenebrosa. As ruas virarão riachos, avenidas mares. Quantas pessoas no meio daquela aguaceira? Algumas dezenas de pessoas somem no meio da tempestade e não nos damos conta. Se agora uma avalanche me carregar para os confins do inferno, ninguém saberá. Mas eu mereço o inferno? Talvez o desastre me leve para o céu. O céu deve ser maravilhoso, pois está perto das nuvens brancas.

Lá no céu, eu construiria uma casa com o suor do meu rosto - Almas não transpiram (que eu saiba) - Bom, mas eu não sei muita coisa, afinal. Então, construiria um castelo, como um desses que eu vi numa rua famosa nos Estados Unidos: Sunset Boulevard. Isso mesmo, castelo no céu onde eu pudesse morar e criar uma família. Não sei como é o céu, também não sei como é o inferno; portanto, os dois podem ser bons. Não acredito no que as pessoas falam, principalmente por entender que elas podem não saber mais do que eu sei.

A mulher volta. Fica parada na minha frente. Ela está com medo de mim, a todo custo tenta me ignorar. Os pássaros me ignoram também, mas eles não pensam. A mulher com vestido vermelho que tem um corte que começa na altura do joelho. Eu me levanto, vai chover. Eu me aproximo, peço um cigarro. Ela assustada não diz nada. Ajeita a bolsa, segurando com mais força do que o habitual. Pergunto se ela conhece o céu ou o inferno.

Silêncio.

Eu novamente peço um cigarro. Parecia simples que ela me dissesse um sim ou um não. Ela reluta, não responde. As pombas me ignoram também, elas também não sabem pensar. A mulher que tem cabelos longos e loiros fuça na bolsa, tira um cigarro. O carro chega. Ela me dá o cigarro. Ela entra no carro. Agradeço, ela sorri. Eu a conheço de algum lugar. Seria alguém da infância? Alguém da adolescência? Alguém da minha morte? Alguém quando eu tinha doze anos? Jogo o cigarro no chão, eu não sei fumar.

Começa a chuva. A chuva sempre me faz correr para algum lugar que eu não conheço, mas sei que lá estarei seguro. Tantas vezes levou corpos, lavou almas; não me levou ainda. A chuva vai parar daqui alguns minutos. E eu imagino sempre voltando para a mesma calçada, para onde consigo fazer com que as pessoas façam exatamente o que quero: “Um cigarro, por favor”. Só não controlo as nuvens, minha memória e os pássaros que voam.

Pássaros? Foram embora quando eu tinha doze anos.







[1] 08/2011

sexta-feira, novembro 14, 2014

DESCONECTADO: Invoque Criolo

 

Criolo refaz sua obra. Depois do aclamado “No na Orelha”, eis que o rapper paulista aparece com um novo lançamento, onde pompas e jogadas de marketing são ignoradas por completo. Era o que se esperava depois do sucesso enorme do seu segundo álbum, mas não foi o que aconteceu. “Convoque seu Buda” surge tão tímido e introvertido como parece ser o próprio autor. Disponível gratuitamente para a massa, chegando a qualquer e para qualquer ouvido que goste de música; posso dizer que esse novo trabalho é uma grande surpresa. Se você virou fã do trabalho anterior, espere uma maturidade maior para este lançamento.

“Convoque seu Buda” é a consagração da crônica urbana em forma de rap. Criolo parece conseguir esse efeito linguístico, com uma leveza não muito comum nas músicas deste estilo; onde o dialeto e a regionalidade são características marcantes na crítica social. Criolo gosta do humor, gosta da filosofia; repete fórmulas que socializam sua música em guetos tão diferentes de sua origem, navegando em grupos que, em sua maioria, são alvos de suas críticas. Isso não importa muito: não há um inimigo declarado, personalizando o “sistema”. O sistema não é mais um conjunto de medidas desassociadas das pessoas. Convoque seu Buda é a brasileiríssima forma de se discutir o rico e o podre, espírito e corpo; sociedade versus capitalismo. Criolo desvenda com olhar subjetivo mais uma vez São Paulo de tantos contrastes.

Ao mesmo tempo parece ser uma obra muito pessoal, contando cada item observado pelo narrador de tantas situações corriqueiras de nossa vida. A forma clássica e não habitual para um rapper, coloca-o entre compositores do fechado grupo da MPB. Tal como um Chico Buarque do rapper – é claro que estou exagerando – Criolo consegue chegar ao limite da compreensão de tantas situações, que parece mesmo que ele é, ou se transforma, em vários “eus” da sua linguagem literária. No aspecto musical, acho que a evolução desse segundo álbum é nítida. Ainda que faça uma sopa de referências, e nem sempre isso é bom; fica claro que a música religiosa (Umbanda e Candomblé), assim como o samba; Geraldo Vandré, Azevedo e Zé Ramalho acabam participando indiretamente da obra. Em uma das canções uma novidade, o reggae.

A primeira música é CONVOQUE SEU BUDA, que dá nome ao álbum. Quem consegue colocar: “Nin Jitsu, Oxalá, capoeira, jiu jitsu, Shiva, Ganesh, Zé Pilin” numa mesma música? Criolo mostra a luta do dia-a-dia e a necessidade de trazer a espiritualidade contra a sociedade do consumo, dito pela a música como um dos maiores males da sociedade moderna: “Depressão é a peste entre os meus, plano perfeito pra vender mais carros teus”. ESQUIVA DA ESGRIMA tem o melhor refrão do álbum, a música remete a melhor fase do disco anterior, talvez a maior referência do seu sucesso anterior: “Cada maloqueiro tem um saber empírico, Rap é forte, pode crê, oui, monsieur, Perrenoud, Piaget, Sabotá, Enchanté” é a indicação de que haverá dentro do rapper das ruas a inclinação do pensamento do primeiro mundo.

CARTÃO DE VISITA mostra o Criolo da crítica bem humorada. A riqueza e a pobreza dentro de um mesmo universo. Crítica aos movimentos sociais, como os tais “rolezinhos” que foram uma febre no começo do ano. CASA DE PAPELÃO fala sobre pessoas da rua, viciados em craque: “Toda pedra acaba, toda brisa passa, toda morte chega e laça; são pra mais de um milhão”.  A pior música do álbum é FERMENTO PARA MASSA; acho o refrão enjoativo e uma letra muito fraca. PÉ DE BREQUE um reggae cheio de efeitos sonoros.

PEGUE PRA ELA é MPB na certa. Volta com o PLANO DE VOO com o rap em sua estrutura mais essencial. Como repentista urbano fala do mundo, das coisas que está vendo; com suas palavras: “Do monstro que se constrói com ódio e rancor a cada gota de bondade uma de maldade se dissipou, várias fitas... Eis uma definição pra vida...”. DUAS DE CINCO é outra que traz o rap em sua essência, uma das letras mais interessantes do álbum: “Absolut, suco de fruta, mas nem todo mundo é feliz, nessa fé absoluta. Calma filha que esse doce não é sal de fruta. Azedar é a meta. Tá bom ou quer mais açúcar?”.

A música FIO DE PRUMO pode ser colocada em qualquer obra dos grandes nomes da MPB. Participação especial de uma grande voz da nova MPB, Juçara Marçal. A música é uma saudação às forças da natureza. A cidade como uma selva de pedra, se digladiando com elementos  concretos: Laroyê bará, abra o caminho dos passos, abra o caminho do olhar, abra caminho tranquilo pra eu passar”.

Uma coisa que não podemos dizer desse novo álbum: que ele é sóbrio. Não é nem de longe uma obra consistente, mas cheia de maneiras diferentes propostas pelo cantor. Até mesmo a capa pode dar uma pista em relação a isso. Não me surpreenderia se o álbum se chamasse “Torre de Babel do Criolo” ou coisa parecia. Por isso, caso tenha gostado do primeiro álbum, corra para adquirir esse novo lançamento. Se não gostou, busque esse novo lançamento: ele trará surpresas que você pode não ter percebido anteriormente.

Escute: Esquiva da Esgrima, Casa de Papelão e Fio de Prumo
Criolo, Convoque seu Buda – 2014 - Nota: 8,5







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sexta-feira, novembro 07, 2014

A mulher que sorri de Moares

 

Entediado, eu que rogado, nunca fui de samba:
Outrora o passado, que é presente, um passado
bem distante; lá dos poetas e violeiros; eu fui.
Lá tinha gente comum, mas semideuses, do poema
da música e de conhecer você, qualquer mulher.
Eles sabiam os olhos, sabiam a alma; entendiam
de algum modo mais que eu, qualquer sorriso.
Quem dera um dia, ao piano e uma letra, eu
cantando desafinado, como fora a música, hoje.
E gritam o sarava de uma fé desconhecida,
e riem das desgraças do vento, que causam
solidão, a dor e o pouco do desamor:

“Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!”

Entre eles me sento, pego uma cerveja; bebo.
Se fumo, naquela foto branco e preto, fumo pouco.
Mas amo mais, pois amar ali, naquela história;
parecia ser mais livre e mais compreensível.
O poetinha, que curvava-se pela mulher morena;
não tinha qualquer vergonha de amar.
Não tinha vergonha a mulher, ainda que chorando;
de sorrir de qualquer bêbado que chegava
a noite, sem qualquer desculpa; com qualquer
tormento e a camisa branca manchada de vermelho.
E ali, naquela foto em preto e branco; podia-se dizer
Em alto em bom som:

“Sem você meu amor eu não sou ninguém”.

Que saudade daquela época, quando estou entediado.
Saudade de sorriso da mulher que não conheço.
Sorriso de poder escrever sobre você: 
Amar, cantar, fumar e beber; saudade de rimar, 
em decassílabos sonetos; prosas e versos, 
escrever sobre você; 
mulher que nos sonhos aparece sempre sorrindo.


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quarta-feira, novembro 05, 2014

Politicavoz: Noites sem sono?

Apesar do título, o texto não fala sobre política, mas como as relações ficaram depois das eleições presidenciais de 2014.


Tentei me desvencilhar de toda essa discussão política, mas não consegui. É mais forte que eu. O defeito, embora alguns acreditem ser uma ótima qualidade, é minha maneira conciliadora. Assim, por mais que eu relute, e mesmo observando o assunto encerrado e saturado; sempre procuro elementos para a construção de mais algumas páginas nesta tragicomédia. E foi grandiosa e épica: Irmãos contra irmãos, pai contra filho e chefes contra empregados. As eleições presidenciais me fizeram observar um elemento novo dentro do meu convívio, de pessoas que eu conhecia; que são minhas amigas; íntimas: a intolerância. Não chorei pela derrota do Aécio, tampouco comemorei a vitória da Dilma; pois nos minutos que se passaram depois do resultado final, levei comigo apenas um sabor amargo das relações.

Nem todos, alguns foram decentes. Mas é oásis no meio dessas relações virtuais a compreensão, ou pelo menos o respeito, entre as pessoas. Parece que o distanciamento real nos dá, nos elementos virtuais, chancela para nossa crueldade. Podemos ser um pouco racistas, machistas e por vezes, macabro. Fui chamado de filho de uma puta por pessoas que eu nem conhecia. Pior ainda, chamado por aqueles que me conheciam. Foi um misto de dor, de vontade de pagar na mesma moeda; de ser tão ou menos humano que todos eles. Sim, filho da puta. Não ousaria mais uma vez escrever a palavra, visto a estranheza que me causa aos olhos e aos ouvidos - Amargurem-se comigo, nadei agora um pouco no mar da insanidade – Pai de família, empresário; dizia-se muito bem educado em escolas conceituadas.

Tudo bem, eu vou indo muito bem. Não carrego na bagagem tanto ódio. Ainda que me sinta insatisfeito com os rumos políticos no Brasil, mesmo assim ainda não quero ter esse direito. Direito de querer a todo custo humilhar aquele que, nem nos piores pesadelos, é meu inimigo. Eleitores do Aécio ou da Dilma não são meus desafetos, mesmo que se mostrem assim, em suas maiores e mais frequentes opiniões; prefiro que eles continuem comigo, no meu convívio. Embora ainda tenha dúvidas em relação ao meu tom conciliador; prefiro ainda que tenha esse caráter minhas relações.

Aquele que não se sentiu ofendido, melhor assim. Aquele que sentiu que ultrapassou o bom senso, é momento de pedir desculpas. Não para mim, não as exijo nem sob tortura. Não foram a mim que humilharam, foi uma humilhação interna; intransferível. Humilharam-se quando decidiram que determinados argumentos, como num ringue ou briga de rua; eram essenciais para se ganhar a disputa. Não preciso de desculpas. Não quis e não quero participar dessa gincana de adolescentes birrentos, que encontram prazer em jogar o ser humano, julgado diferente, na sarjeta; como uma espécie que não pensa e que não tem suas próprias considerações sobre os mais diversos assuntos.

Realmente eu não me ofendi com todas alcunhas que foram disparadas sem qualquer critério. Minha ofensa é pela verdade que apareceu nas mais diversas pessoas, das mais diversas classes; das mais diversas maneiras. Enfim, mesmo que tenha sido muito doloroso, pude presenciar aquilo que algumas pessoas guardam bem no fundo do baú, lá escondido entre os péssimos sentimentos. Pela primeira vez as redes sociais não transbordaram um mundo de fantasia onde todos se amam, mas um local de uma suposta liberdade; onde nem mais se aturam.


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sexta-feira, setembro 12, 2014

Prostíbulo


E no ar reflete, chamo.
Onde transa aos poucos, e
ainda, e versa; ultrapassa.

Quando chegar a hora
avise-me sem demora.
Seca e finda, final da noite.
Onde está? Como está?
Deito como encontrado.
Peito dormente, olhos cansados.

Felicidade? Jamais procuramos.

E as mãos de um crime:
Toca, leve; leva e a neve.
Não há frio, nunca houve.
Sequei, acabei.
É o fim da noite? Leve.

Tente mais uma vez,
Não se arrependerá.
E a boca; que esconde o crime.
Toca, tensa; leva e engole.
Como está? Onde está?
Ainda, e verso, teimo;

Chego a me apaixonar
quando chega a hora de ir embora.

Mas passa, logo passa.
Você já espera me esquecer:
Estamos quites nessa noite.


quinta-feira, setembro 11, 2014

Palavras nos muros


É tempo em que palavras desdizem.
Se remetem ao amor, ao dissabor,
logo, em pequenos passos, vão sem direção:
Transformam-se em ódio.
Palavras de saudade, choro.
De amizade: brigam, como crianças
que sempre têm razão.
Se azul, das cores livres; o preto.
Dos escravos, a história de tanto sofrimento,
ouve-se velado um desrespeito.

Ninguém entende nada da finalidade de ser humano.

A podridão da guerra, a folia dos genitais
ardendo em fogo: Blasfema palavras!
É tempo em que as palavras dizem nada.
Meia noite ou meio dia; sem qualquer sabor.
Não fica, nem vai embora; jamais arrepia.
E soprada no ouvido, desdenha flertando.
É mais febre que o amor; que com ela se contradiz.
Palavras da salvação, como ordem;
quando Seu exemplo não se ordenava.
Palavras de desculpas genéricas; na íntima ofensa.
De carne e osso; o abraço que não existe; morre nascituro;
Sem necessidade de ser compreendida,
num baú de cartas envelhecidas.

A podre palavra que não vale quase nada.
Por isso é tempo de retomar as palavras,
na insanidade que ela define.
Palavra do xingamento, do mal caráter bem querer.
Palavras desconectas dos embriagados.
O murmurar dos maltrapilhos, desculpas esfarrapadas.
A santidade evangélica dos infiéis.
É preciso as palavras dizendo grandiosas verdades;
mesmo em pequenas tendenciosas mentiras.
Palavras em frases jogadas ao léu.
Palavras no léxico incontestável
em sua gráfica histórica
e inconfundível tradução.
Palavras sem o arrepio demente dos iletrados.
Basta! Quero a extinção das palavras!
Quero que sumam do abecedário.
Essas palavras!
Dos boçais que inibem o significado
com suas letras indeterminadas
nos muros das cidades.

É tempo que as palavras precisam dizer mais.



quinta-feira, agosto 28, 2014

Dama




E se, de repente, olhar para mim:
Finja, odeie; ame de verdade.
Só não faça questão de ignorar;
como quem ignora um desconhecido.
Ponha a solidão no devido lugar,
senão alguém fará falta.

E seus olhos, nunca vi.

Nunca sorriu para mim
nesses poucos minutos
em que não nos conhecemos.
Não importa muito,
já andamos nos despedindo.

Para quem você olha quando precisa ir embora?

Não me deve nada.
Nenhuma desculpa.
Nem quero saber o seu nome.
Nem precisa me dizer as horas.
Nem qualquer conversa tola.
Não me deve.

Eu – em meu sonho – devo-lhe explicações:
De minha ausência.
Da minha insistência.
Da minha paixão.

Perguntaria a mim se tivesse me notado?
Pois esse encontro que nunca teremos
Carrega um tempo inútil da nossa história.
De você chegando e partindo,
Da minha partida sem nunca me ver chegando.



terça-feira, agosto 12, 2014

Os dias de hoje


Disperso, na relíquia do tempo, viajo para dias melhores.
A nostalgia que paira, reflete no limbo, criaturas felizes.
Era feliz aquele tempo e sabia.
O pé da fruta, do primeiro sabor, que eu não sabia o nome:
Bicho com fruta, fruta com bicho; ainda não matava.
Naquele tempo, do passado em preto e branco,
Tudo parecia mais colorido, ainda que aos avessos;
A vida tinha lá, em seus trejeitos, um tanto de dificuldade.
Chocolate, pão com requeijão; mistura da comida variada.
Tudo faltava, desde remédio até os canais de televisão na sala.
Mas eu era feliz, naquele tempo; coisas que a saudade traz.

O mundo anda tão distante, tão menos saboroso.

Ando me acostumando com o errado.
Aquilo que não dá certo,
com esquisitices alheias, as minhas.
Com a infelicidade, que de todo hábito,
É o pior.

E viajo, como quem foge mesmo, sem ser derrotado pela vida.
Ando sumindo, como quem olha a paisagem e parece não saber;
Não pensar em nada; ou quase; pois é impossível qualquer vazio.
Fico ali, olhando os carros diferentes, as pessoas que se matam;
A febre que devora, as doenças que se espalham; a guerra
A epidemia, o transtorno de todos; pois todos estamos transtornados.
Olho gente indo, gente querendo ir; gente com medo de ficar.
De assumir a vida, a vontade de abraçar, de dizer coisas boas.
A felicidade, como bem precioso, tem lá sua culpa na inveja.

O mundo não me pertence.

Pois, na chuva, da água poluída; o medo.
Ando me acostumando com o medo.
Com as bizarrices das pessoas; ou as minhas.
Com a infelicidade, que bate a porta;
E deixo.

E quero mais um pouco de tudo que o mundo esconde.
Que se esconde do mundo, as coisas mais belas.
As coisas lá do passado; ou presente, a relíquia.
Meu maior presente será a felicidade, dos dias; aproveitados.
Todos os dias!
Carpe Diem aos avessos, ad aeternum.











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