HOJE É VINTE

sexta-feira, janeiro 27, 2017

DESCONECTADO: É bolacha!


Dezesseis ou novecentos; tanto faz. A idade hoje não define a cidade. Alias, nada define. Somos todos tão diferentes, de todos os lados e de todos os mundos; que às vezes acho que não temos nenhuma identidade. Somos essa mistura, que muitas vezes juntos, misturados. Mas em grande parte do tempos somos solitários. Não há nesse país gigantesco um povo tão solitário quando o paulistano. É duro admitir que preferimos andar em silêncio, do trabalho para a casa e da casa para o trabalho. Puxamos, vai saber, a inexistência afetiva dos povos europeus, que pouco se abraçam. Mas dentro de todos nós, aqui na cidade que é cinza, um pouco de cada estado e um pouco de cada país, nos fazendo diferentes e únicos. Um pouco também do interior desse Meu Deus, que nos dá sobrevida nessa vida que nem parece alegre. O paulista salva muitas vezes o paulistano, com sua maneira de ver o mundo, sua velocidade de fazer as coisas, seu modo de se abraçarem.
Temos defeitos, muitos defeitos. Suponho que temos mais defeitos que qualidades, mas como eu disse anteriormente, não temos identidade. Camaleão de si mesmo, paulistano às vezes parece uma coisa e não é. Já vi engravatado Zen, espiritualizado ao extremo. Já vi pobre, assalariado e maltrapilho capitalista, dos capitalistas que só abrem a boca para falar de ganhos e perdas do dinheiro, não exatamente o que o dinheiro pode trazer. Já vi paulistano colocando ketchup na pizza. Vi paulistano que odeia pastel de feira. Vi paulistano que adora o plural. Vi paulistano que não entende o significado quando se diz terra da garoa. Vi paulistano com sotaque árabe, indígena, italiano e chinês. Vi paulistano que não se considera paulistano e quer fazer de tudo para sair da cidade, mas morre aos noventa e sete anos sem pelo menos ter tentado.
Temos defeitos e os outros sabem. Povoam as mentes dos irmãos das outras cidades que, sendo paulistano, é melhor ficar esperto, pois paulistano mesmo é muito egoísta Egocêntrico, soberbo, intolerante e qualquer coisa que valha ao suprassumo do ser humano profissional, conhecedor de todas as causas e de todos os direitos, experiente em guerrilha urbana e devastador nas discussões políticas. Paulistano deveria ser banido pelas autoridades competentes, pensam alguns. Mas vamos com calma, pensem um pouco, não acabem conosco, temos defeitos, mas temos algumas qualidades. Não quer saber quais? Estamos ai para dizer, marque um horário qualquer, temos bares, restaurantes e qualquer canto dessa cidade você pode comer qualquer coisa, ver qualquer exposição; libertar-se de uma vida cotidiana.
Falamos diferente é verdade. Um sotaque que só de longe se sabe. Erres, porteiras e portões. Temos dificuldade com o plural. Temos dificuldade de nos expressar, embora todos paulistanos falem pelos cotovelos. Temos uma paixão exagerada pelos bares abertos, embora tudo em São Paulo fique sempre muito escondido e muito fechado: alguém vai te levar para conhecer o bar daquele português que faz uma feijoada maravilhosa, mas que ele não sabe o endereço, nem o nome do português e nem o nome do bar. Vá com fé, quando gostamos de um lugar, costumamos repetir exaustivamente. Só desconfie quando alguém chamar você para um baile na favela, um churrasco na laje, essas coisas em São Paulo só acontecem com pessoas muito íntimas. Passear de metrô, vá, pode ser legal. Mas passear de ônibus, jamais. Paulistano odeia qualquer transporte coletivo quando não é necessário, embora ame o metrô, que na verdade chama metropolitano. Aqui tudo é muito longe, tudo demora; tudo exige uma parcela enorme de paciência. Zona Sul, Norte, Oeste e Leste são subdividas. Há quem more a vida inteira na Zona Norte e não saiba nem a direção da Zona Sul. Os bairros são como divisões territoriais.
Estamos comemorando. Temos muito realmente que comemorar. Viver em São Paulo exige uma prática desumana. Temos que ser um pouco de máquina que não para nenhum momento, e se precisa de reparo, tem que ter a data certa e o horário certo. Comemos rápido, mas quando temos oportunidade em demorar, o almoço demora três ou quatro horas. Bebemos muito, festejamos de madrugada, poucas horas do despertador tocar para mais um dia de batente. Somos trabalhadores, mas adoramos um dia de preguiça. Somos individualistas, mas adoramos ser solidários. Somos solitários, mas temos muitos amigos. Adoramos a natureza, mas vivemos de ir ao shopping. Adoramos literatura, arte, samba, música, rock, comida mexicana, virado à paulista, pão de queijo e um bom café, adoramos mate, ervas aromáticas nos banheiros. somos todos tão normais, que nem parece que vivemos em São Paulo.
Aqui comemos bolacha, meu! Sempre será bolacha qualquer tipo de bolacha que você tenha a capacidade e insistência em chamar de biscoito. Venha conhecer São Paulo e seus lugares maravilhosos e limpos; não se irrite com os lugares sujos e cinzas. Moramos numa espécie de megalópole Yin e Yang. Venha nos conhecer, mas releve nossa prepotência, por favor. Verá que pode existir amor em SP. Existirá amizades legais em São Paulo. E jamais, em hipótese alguma, chame biscoito de bolacha e São Paulo de Sampa. Isso acaba com qualquer domingo com macarronada.

(Texto em homenagem aos 463 anos de São Paulo)
Postado por Sérgio Oliveira às 10:03 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Desconectado

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Escurece


Naquela noite, de sono terrível;
o sono que não veio; do jeito,
da cor e do som que eu prefiro.

Nas horas que conto sozinho, 
cada ponteiro é picada de inseto
que com veneno alimenta o corpo,
e o pensamento tão inútil e incerto.

Naquela noite, escurece ainda mais
aquilo que vejo, e ouço e sinto, mas
prefiro silenciar nas horas incertas;
de cada ponteiro como veneno, que
alimentando-se do corpo, tão inútil
vê no sono, ainda que sem encanto;
cantar ao infinito todos os sofrimentos.

Requer sabedoria não aceitar o sono,
como aquele sono que não teve jeito,
de não ver as horas que passam, e 
não ouvir o ponteiro que fica; e sozinho,
não alimentar o pensamento de viver,
tão inútil, incerto é qualquer vida, depois
da mordida lenta e sem cor desse inseto.




.
Postado por Sérgio Oliveira às 8:45 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Poema

domingo, dezembro 11, 2016

DESCONECTADO:Minhas 20 Melhores bandas internacionais (Parte 2)

 

Seguindo a publicação anterior, trago agora mais duas bandas que considero entre as vinte melhores de todos os tempos. Joy Division por toda importância história e pela música em si. Concordo que não é uma música fácil de escutar, e que muitas vezes causa mais estranheza para quem encara a música como um divertimento. Outro grupo é o U2. Antes mesmo da postagem já recebi algumas críticas em relação ao seu posicionamento: afinal um grupo como esse não pode estar na 17o. colocação. Como eu disse na minha primeira postagem, a colocação não é muito relevante no momento, pois obedece apenas o critério pessoal.



18  - Joy Division

Inglaterra – (1976/1980) – Discografia - Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980)

Outro grupo clássico. Para quem nunca ouviu falar, principalmente os mais jovens que estão lendo esse texto; dêem uma olhada em algumas apresentações do Legião Urbana, saberão que Renato Russo foi um dos grandes fãs da banda inglesa. A produção desse grupo é fácil encontrar, tirando algumas gravações raras, basicamente sua discografia está resumida em dois grandes álbuns: 1979 e 1980. Mas as músicas são tão intensas, as letras tão magnificamente pavorosas; que realmente não é necessário que fosse produzido mais nada.

Closer é um disco sombrio e triste. Na prática pode ser considerada uma obra póstuma, já que foi lançado após o suicídio do vocalista Ian Curtis. O clima das músicas é desagradável para pessoas que querem se divertir; pensar nos prazeres da vida; ou que adoram repetir a máxima do carpe diem. As músicas dão um teor pessimista ao futuro, as nossas angústias e nossos sonhos. No entanto, é repleta de poesia, de arte e principalmente da cruel máscara dos erros humanos.

Quem quiser conhecer que procure toda obra. Procure letras, a história do grupo. Inclusive um filme gravado em 2007, “Control”.

“Procissão continua, a gritaria acabou. Louvar para a glória dos amados que agora já foram. Conversando alto enquanto eles vão sentando ao redor de suas mesas, flores espalhadas lavadas pela chuva..” -  (The Eternal).

Procure os álbuns: Toda discografia (fácil, apenas dois discos). Mas uma dica: Sirva-se dos melhores sentimentos para encarar a solidão, o romantismo e o desespero proposto pelo grupo.


17 – U2

Irlanda (1976 – presente) – Discografia: Boy (1980) - October (1981) - War (1983) - The Unforgettable Fire (1984) - The Joshua Tree (1987) - Rattle and Hum (1988) - Achtung Baby (1991) - Zooropa (1993) - Pop (1997) - All That You Can't Leave Behind (2000) - How to Dismantle an Atomic Bomb (2004) - No Line on the Horizon (2009)

Esse grupo foi uma das maiores dúvidas em relação a lista. Não que eu tive dúvida em relacioná-la aqui, mas em relação à sua disposição. Uma das bandas mais importantes do cenário musical, com um enorme número de fãs espalhados por todo mundo, parece merecer um ranking melhor. Outra nota favorável: dentre os relacionados nesta lista; é um dos poucos que conseguem agradar vários públicos. Desde quem gosta de rock, como de pessoas que gostam de música mais comercial (ou pop, como queiram). E mesmo assim, U2 não é um grupo comercial, mas sabe ser popular mesmo sendo interessante. Acho que o ponto mais alto do grupo é o vocalista, que curiosamente significa “Boa voz”; que era seu apelido quando adolescente, já que ninguém gostava muito de vê-lo cantando.

E com tantos adjetivos maravilhosos, como ele ficou nesse lugar? Pois bem. Quando eu disse que analisaria várias informações sobre a banda, e mesmo a questão do gosto pessoal; o grupo perde alguns pontos que poderiam tê-lo ajudado. O grande pecado do grupo foi quando decidiriam agradar uma gama de fãs que não existiam: é vergonhosa a fase da banda dançando “lemon” com aqueles óculos coloridos. Até mesmo o álbum Achtung Baby, tão apreciado pelos fãs da banda, não é do meu gosto pessoal. Concordo que The Edge está numa das melhores fases melódicas, mesmo assim é um álbum que não entra muito na minha lista de favoritos no computador. Os anos de discotheque me fez rebaixar uma banda importante como U2.

Com a retomada com All That You Can't Leave Behind foi importante não apenas para o grupo, mas eu acho que muito melhor para a música: sim, é possível fazer música de qualidade que possa ser tocada em qualquer lugar, em qualquer parte do mundo! Os dois álbuns seguintes trazem a mesma receita (ou receituário), de um rock pop simples, direto e muito bem feito.


Procure os álbuns: Boy - War - The Joshua Tree - Rattle and Hum - All That You Can't Leave Behind
Postado por Sérgio Oliveira às 10:26 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Desconectado

sexta-feira, dezembro 09, 2016

DESCONECTADO:Minhas 20 Melhores bandas internacionais (Parte 1)

 

(Postei esse texto pela primeira vez no site INFORMAÇÃO VIRTUAL em 2010)


Relutei muito em escrever esse texto. O tema sempre passou pela minha cabeça, mas nunca tive coragem de esboçar qualquer idéia. Se vocês não sabem, roqueiros adoram fazer listas. Desde melhor baterista, melhor capa; piores músicas e assim por diante. Eu, como não sou diferente, fiquei imaginando como seria uma hipotética lista das minhas vinte maiores bandas de todos os tempos. Não é um assunto fácil, principalmente para quem gosta e se envolve com música até o último fio de cabelo. Mas botei a cara!

Antes de colocar os nomes no papel eu precisei definir um critério. Gosto pessoal? Técnico? Vendagem? Como decidir entre as melhores? Pior ainda: como ordená-las? E com certeza essa parte é a que causará maiores transtornos para mim e para os leitores. Mas não liguem muito para a ordem, a sua importância é fundamental apenas para mim; não para vocês. Aliás, falando a verdade, nem a lista terá qualquer importância. Mesmo assim, considerei divertida a elaboração, espero que seja também a sua leitura. Pois bem, acabei definindo que os critérios são pessoais e intransferíveis. As vinte bandas relacionadas são exatamente as vinte que eu mais gosto e ponto final. Podem concordar ou não com ela, para isso servem os comentários. E o legal disso é exatamente a discussão, a troca de idéias e expressar o que sentimentos por cada uma delas.

Decidi também que a análise seria por toda a obra, não apenas por uma ou duas músicas chamadas clássicas, ou “as mais conhecidas” no dito popular. É claro que para isso eu precisaria conhecer todo material produzido pela banda, e foi exatamente o que eu fiz: conhecer todo material produzido, ou quase todo. Outro critério que eu utilizei foi o histórico: eu precisaria conhecer um pouco do grupo e qual o significado que eles tiveram para a música. Isso foi feito em duas ou três pesquisas na internet. 

A lista saiu. É claro que se modificará com os anos. Hoje mesmo, lendo o que escrevi e estou publicando, já torci o nariz para algumas coisas. Portanto a lista não é estanque, não é tratado; é apenas uma idéia do que eu gosto; das coisas que eu acho que as pessoas precisam conhecer.  Nada além disso. Mais do que certo ou errado, é apenas uma opinião de um fã qualquer.

A relação começa.



20 – Echo and The Bunnymen

Inglaterra – (1978 – Atualmente) – Discografia Estúdio: 1980 (Crocodiles) -   1981 (Heaven Up Here) - 1983 (Porcupine) - 1984 (Ocean Rain) – 1987 (Echo & the Bunnymen) – 1990 (Reverberation)  - 1997 (Evergreen) – 1999 (What Are You Going to Do with Your Life?)  - 2001 (Flowers) – 2005 (Sibéria) – 2009 (The Fontain).

A escolha desse grupo tem um lado muito pessoal. Numa época não muito distante, eu praticamente escutava todos os dias o álbum de 1980 e 1984. O grupo é conhecido pela música The Killing Moon de 1984. É uma das bandas mais cultuadas pelos grupos atuais do pop britânico. O grupo sumiu durante o período (pelo menos para mim), quando, de repente, aparece com um dos melhores álbuns do começo dos anos 2000: Flowers.

Procure os álbuns: Heaven Up Here - Ocean Rain - Flowers


19 – The Cult

Inglaterra – (1984 – Atualmente) – Discografia Estúdio: Dreamtime (1984) - Love (1985) - Electric (1987) - Sonic Temple (1989) - Ceremony (1991) - The Cult (1994) - Beyond Good and Evil (2001) - Born Into This (2007) - Capsule (2010)

Outro grupo que tem um significado histórico para mim. Os discos de 1984, 1985 e 1987 não saiam da minha vitrola (essa palavra revela minha idade). O grupo passou por diversas fases em poucos anos, por isso quem escuta os primeiros trabalhos terá dificuldade em acreditar tratar-se do mesmo grupo. Saindo do punk para o gótico até o mais puro rock and roll. Esse é o resumo dos três primeiros trabalhos. Posteriormente tiveram uma fase mais hard-rock, fase em que o grupo fez mais sucesso. Reconhecimento mundial com She Sells Sanctuary. Não gosto muito da fase iniciada em 1994 e dura até hoje, por isso sua colocação na lista. Tivesse existido os quatro primeiros álbuns somente, o grupo estaria entre as cinco melhores.

Procure os álbuns: Love -  Electric.





Continua....
Postado por Sérgio Oliveira às 8:49 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Desconectado

sexta-feira, outubro 28, 2016

DESCONECTADO: Fraternidade, Igualdade e Liberdade

 

Na Revolução Francesa, um dos maiores movimentos contemporâneos, um lema foi determinante no processo de ruptura com o modelo social e econômico. Uma mudança que trazia ao centro da sociedade um novo integrante: a burguesia. Nasce um movimento político que tinha como base uma nova construção socioeconômica. Na revolução diziam: nada valerá a liberdade se não houver igualdade. E posteriormente: a fraternidade, que é o amor entre os irmãos humanos no planeta, é vital para a revolução. Assim, eternizou a expressão: liberdade, igualdade e fraternidade, ou em sua língua pátria: Liberté, Egalité, Fraternité.

No entanto, viu em ruínas seu propósito quando a liberdade da revolução foi também a construção de cadeia aos opositores. Quando a igualdade entre os seres se perdeu na elaboração de uma rede de privilégios deixando exposta a fragilidade dos meios econômicos e consequentemente sociais. Viu também a fraternidade se deteriorando nessa desastrosa compilação de conceitos e meios, justificados como modernos, mas com viés extremamente individualistas.

Se muitas conquistas da humanidade nasceram na Revolução Francesa, algumas controvérsias mostraram que a prática de uma teoria perfeita ainda estava longe de ser uma realidade confortável. Sequelas de uma liberdade condicional, uma igualdade elitizada e uma fraternidade seletiva são protagonistas numa sociedade arrogante, violenta, ambiciosa e desumana que ainda parece ser uma chaga na sociedade moderna.

A resolução para tal enigma tinha aparecido há dois mil anos, com uma revolução mais libertária, igualitária e fraterna: o Evangelho de Cristo. E para tal, se analisarmos a lição vanguardista que ele apresentou, diremos que os conceitos na Revolução Francesa já tinham sido revelados por Jesus de Nazaré, mas com uma diferença simples, mas que modifica toda a relação do homem com ele mesmo e com o planeta onde vive. Jesus trás, com seu Evangelho, a noção de fraternidade, igualdade e liberdade. Isso mesmo, em ordem inversa. Em ordem que estimula muito mais o amor entre as pessoas, pois é no princípio dessa relação humana que aflora as demais necessidades, de sermos iguais e notoriamente livres.

A fraternidade é o principal item das relações humanas, por isso ele deveria vir em primeiro lugar. Ele é o fim do egoísmo. A fraternidade determina que o outro é tão importante quanto a nós mesmos. O outro requer cuidado e atenção. O outro é o mais próximo mesmo quando está distante. O outro é filho de Deus, mesmo em seus erros que parecem imperdoáveis. O outro é espelho de nós mesmos na construção da humanidade. O outro não se difere em nada daquilo que eu sou. O outro é a peça mais importante na construção da minha vida, ele dá a sustentabilidade para quem eu sou. Ninguém vive sozinho, e quando reconhece no outro a si mesmo, reconhece sua própria criação. Por isso Jesus pediu a reconciliação com o inimigo, por isso não deixou que abandonássemos os mais necessitados: de saúde, de condições financeiras, morais e psicológicas. Por isso pediu para amarmos uns aos outros.

E quando vemos com fraternidade "o outro", não existe nenhuma condição que interfira no tratamento igualitário. A igualdade é a equiparação da essência, embora não seja na forma. A igualdade é criar condições mais justas possíveis na realização pessoal. Evidente que a igualdade não pode determinar que pessoas sejam iguais. Neste mundo de preparação, de aprendizado; diferentes formas e meios são construídos no cotidiano. A igualdade não é absoluta naquilo que estou, mas só poderá existir naquilo que sou. As diferenças externas não podem parametrizar a igualdade interna. A essência divina, naquela proposta milenar do namastê, é exatamente a aceitação da igualdade divina entre os diferentes, e somente dessa maneira, olhado para dentro de cada um, acharemos a maneira de equipar oportunidades onde predomina tanta diferença.

Como recriar a igualdade interna na relação externa? Como determinar a igualdade micro na justiça macro? Talvez a fase mais complicada na nossa atual existência. Requer o conhecimento das ligações humanas que ainda não estão nitidamente desenvolvidas. Há, nos estudos esotéricos e filosóficos, a ideia da ligação universal e ininterrupta dos seres no planeta, essa ligação pode ser estudada no "efeito borboleta", que é a relação entre os fenômenos; ou na mais contemporânea "internet", que conectou pensamentos, ainda que em condições artificiais. O fato é que os seres humanos estão se preparando para essa conexão avançada, incondicional e universal. E assim, em suas individualidades, cooperarão para a igualdade criadora. Eu e o Pai somos um; seremos irmãos pelo mesmo Pai.

Ao determinar Jesus que somos uma família universal, que devemos nos conciliar com os inimigos, que não existe diferença na essência humano, embora diferenças nos fenômenos; disse-nos que os maiores problemas estariam resolvidos se amassemos uns aos outros, fraternalmente. Essa segunda proposta, que é a fraternidade; auxiliará na construção de uma ordem mais igualitária entre os homens, mesmo em suas aparentes diferenças.

A fraternidade aflorando e a igualdade, por meio do amor se equilibrar; haverá um outro campo de conceito complexo sendo harmonizado em nossas experiências humanas: a liberdade. É claro que não esmiuçarei a liberdade como ela merece, posto que o assunto requer tantos outros conceitos que não cabem aqui nesse texto. Mas uma coisa fica evidente: a liberdade é formada por escolhas; assim, quanto maior nossa visão sobre a vida humana e consequentemente tudo aquilo que permeia a existência, maior será as opções para a liberdade. A liberdade é maior quanto maior forem nossas opções, até se tornarem de tal forma incondicionais.

Exatamente por isso, quando temos o amparo das relações humanas, baseadas na relação do amor universal, teremos a verdadeira liberdade. Liberdade não é, portanto, fazer aquilo que se quer. Como Paulo de Tarso que disse: tudo posso, mas nem tudo convém; colocando frente a frente a liberdade real e a relativa. A liberdade relativa só terá o “caráter libertador” quando percebermos que nela há a submissão somente pela voz interior, ou como disse Ghandi, a “voz suave” (ou ditador interno). E Deus como “carta magna” transforma aquilo que parece impositivo, numa licença para viver, escolher e principalmente ser livre. A liberdade que parece relativa, em Deus, torna-se uma Liberdade Absoluta.

Assim, quando tomamos o Evangelho de Cristo como norte em nossas ações, teremos a metafísica do seu ensinamento moldando nossas ações; ou seja, seremos fraternos (Fraternidade) para criar a igualdade entre os homens (Igualdade) e faremos isso por nossa própria decisão (Liberdade). Tudo isso demonstra uma inversão não apenas dos valores, mas dos conceitos básicos apresentados na Revolução Francesa. Enquanto a Revolução de Cristo é fraterna, igualitária e libertária; com sua decisão pelo reino metafísico onde as pragas não corroem; a revolução burguesa dá a liberdade que se estabelece dentro de um jogo social, cria uma igualdade em oportunidades diferentes; mostra-nos que a fraternidade é o bem-estar reduzido ao pequeno número seleto de uma família ou comunidade.

Portanto, das duas revoluções, eu prefiro acreditar naquela que começa numa completa e irrestrita reforma íntima.



.


Postado por Sérgio Oliveira às 1:14 PM Um comentário:
Marcadores: Desconectado, Religare

sábado, outubro 22, 2016

Ansiedade


Parar.
Pegar o ar.
Ar que não se apega.
.
Transfere, expulsa; vai
para onde quer, foge.
.
Por onde caminha a vida.
.
Quer ela não caminhe.
.
Pare.
Pegue o ar..."
Postado por Sérgio Oliveira às 8:34 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Poema

quinta-feira, outubro 06, 2016

DESCONECTADO: Geração “Voice” versus Geração “X”

 

Já revelei algumas vezes meu gosto pelos shows de calouros que andam povoando a televisão brasileira. Se eu conseguia me divertir com as bizarrices apresentadas na década de 80, entre a “doideira” e as “maluquices”, comandadas por Sílvio Santos e Chacrinha; imaginem só o que é um show de calouros com uma produção considerada mais profissional? Pois bem, dois desses programas, “The Voice” e “The X Factor”, são alvos de minhas considerações. 

Eu tentei assistir alguns episódios dos outros programas, mas nada que me levasse a fazer qualquer observação. Os dois grandes programas, se é que podemos catalogá-los desse modo, são exatamente os dois que estou comentando.

Bom, aos olhos não tão atentos, o programa apresentado pela Globo e o pela Bandeirantes parecem ter mais itens comuns que divergentes, que nos leva a crer estar assistindo o mesmo tipo de entretenimento. Mas, no fundo, eles têm pouco em comum. Mas são iguais quando nos falam sobre talentos, pois é certo que de ambos não sairá um grande sucesso da música. Não sairá um artista que será reconhecido nas ruas, enchendo casas de shows e vendendo milhares de Cds.  Mas qual o motivo? Eu digo: sucesso não se invoca em apresentações eliminatórias, nem são determinadas pela extensão vocal dos competidores; muito menos a boa disposição dos jurados. O sucesso tem elementos tão complexos que chega a ser muito difícil acertar, lá na fase embrionária, quais artistas valerão o investimento.

Assim, podemos dizer que, invariavelmente, os programas de calouros servem para divertir, ser uma opção para quem gosta de música, mas tem data de validade expressa em seu DNA.

Mesmo com esse item em comum, que é entreter o público, mas não criar um novo artista; ainda assim os dois programas juram sem dedos cruzados que dali sairão “as novas vozes do Brasil”. É claro que faz parte do show, nós, do lado de cá, ficarmos intimidados ao vermos lágrimas, desespero e quase um “fim de carreira” de um eliminado. Mesmo com toda aquela conversa de “você está pronto, não desista da música”; dito para dez de cada dez candidatos, sabemos que essa é a única “verdade” que podemos confiar: o fato de não ganhar poderá trazer mais sucesso na carreira do artista do que sua vitória.

Se o motivo velado dos programas é apenas a diversão, como se dá a escolha feita pelos jurados? Afinal de contas, ou eles acreditam na escolha como a voz que “encantará o Brasil”, ou escolhem apostas, considerando a simpatia, presença e palco e é claro, o talento. Se escolhem talentos, há algo de muito confuso nos dois programas: sem qualquer dúvida The Voice tem melhores participantes. A diferença é tão grande que vi dois ou três figuras carimbadas dispensadas pelo programa da Globo aceitas com louvor pelo programa da Band. Um programa é melhor que o outro? Tem critérios mais exigentes? Os jurados são melhores? Creio que não. Nesse momento surge a grande diferença entre os dois programas.

A postura diante do candidato é peça fundamental na diferenciação entre “The Voice” e “The X Factor”. A postura da Globo é acreditar que o candidato será um sucesso, que é possível. A Globo vende seu programa sem qualquer hipocrisia. Querem os melhores, se esforça para dizer que são os melhores; tudo fomentado por toda a megalomania das apresentações. Exatamente por isso é mais exigente na seleção, mais criteriosa no julgamento. Torce com todas as forças para que o melhor ganhe e faça sucesso.

Do lado da Bandeirantes ainda não vi esse tipo de seleção. Ela se esforça em dizer que o vitorioso terá um “x” do sucesso, mas, talvez, se preocupe com elementos que nada tem com a habilidade dos candidatos. Ela procura em seus participantes algo que que se valorize mais pelo aspecto humano do que a apresentação musical. O programa da Bandeirantes tenta se vangloriar em achar no candidato com “algo além da música”, “além da voz”; “algo escondido”. Esse algo é fácil aos ouvidos dos artistas, mas quase impossível ao ouvido do público comum. Por isso, no gosto popular, é mais fácil torcer por um candidato no The Voice, que apostar em alguém no The X Factor.


De qualquer modo, o lado lógico da Globo versus o lado romântico da Bandeirantes é o contraponto dos dois programas. Escolher qualquer candidato é mais que um tiro no escuro para ambos; embora seja divertido acharmos que estamos participando da revelação de um novo talento. A Globo pode acertar quando descobrir um candidato completo e a Bandeirantes quando descobrir um candidato que tem a essência artística, que nem ela sabe (ou pensa que sabe) exatamente o que é. 

A sorte, de qualquer forma, não tem que ajudar muito os dois programas, além de não desgrudar a cada eliminatória, dos candidatos. 
Postado por Sérgio Oliveira às 6:43 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Desconectado

quarta-feira, agosto 03, 2016

E tantas coisas ainda....


E de tantas coisas, ainda
quem me dera, tantas coisas.
E fui, sem avisar, dançar:
na chuva, forró; sem jeito.
Fiz de tudo, mas pouco.
Me apaixonei, tive medo:
de morrer, de viajar sozinho
de pular de um avião.
Mas fui ousado, faltando:
na escola, tomando porre;
chorando de tanto rir.

E de tantas coisas, na vida:
Andei triste em uma ambulância,
não visitei lugar nenhum dos sonhos
nem realizei o sonho secreto.
Não conheço nada, além das fotos;
a torre, os Beatles e a fome.
Não dancei tango, nem mergulhei
em águas geladas, em um cruzeiro.
Não fiz nada, e tem tanta coisa feita.

Já tomei porre sozinho.
Já fui ao cinema sozinho.
Já chorei sozinho.
Já tive medo de morrer,
já me alegrei de alguém nascer.
Já tenho um livro, uma música;
poemas e uma peça.
Já ouvi meu nome alto no teatro,
nunca tive um osso quebrado.

E de tantas coisas, não quero
tatuagem, piercing; nem cicatriz.
Nem dor de cabeça, nem separar
nem chorar de tanto rir; nem isso,
nem aquilo.
Tem uma porção de coisas que não quero.

Já toquei guitarra, bateria e contrabaixo:
Cantei imaginário no chuveiro.

Plantei uma árvore, plantei hortelã que não cresce.
Queimei a língua com chá quente.
Já nadei sem roupa, mas não lembro.
Já dancei sem roupa, mas não lembro.
Não quero avião, nem carro automático.
Nem camelo, nem cavalo.
Já apareci em jornal em página policial.
Já fui em show da banda que mais gosto.
Já gritei gol do time adversário.

Já fiquei internado, mas não ia morrer.
Já tive alta médica com medo de morrer.
Meus ossos estão inteiros, mas não os cabelos.
Meu corpo não é o mesmo.
Ainda não tenho grana, mas não sou pobre.

Já cai em bueiro andando de bicicleta.
Já quase tomei tiro de bandido.
Já quase apanhei por causa de ciúmes.
Já virei a noite festejando.
Nunca dormi vinte horas ininterruptas.
Já passei a madrugada assistindo filme.
Nunca me vi em um filme,
mas já passei na televisão.
Já cantei em inglês sem saber a letra.
Já perdi gol feito.
Já fui goleiro frangueiro.
Já me arrependi de ter feito.
Já me arrependi de não ter feito.
Já olhei para o céu e não vi a Lua.

E tantas coisas ainda...




.





Postado por Sérgio Oliveira às 4:15 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Poema

quinta-feira, junho 30, 2016

Um cigarro, por favor

Texto que escrevi para o Blog http://conselheirasdoamor-bine.blogspot.com.br/

 


Daí você acorda três horas da manhã. Lá fora um silêncio modesto. Sinto sede. Queria um cigarro. Levando da cama e vou até a janela. Olho para a cama vazia: você não está. Quanto tempo faz? Não sei. Não consigo determinar certas mudanças na minha vida.  A solidão como tema principal das minhas queixas é coisa recente entre os amigos, mas não sei quanto tempo faz. Nunca toco no seu nome, mas todos sabem minha verdadeira aflição. Queria um cigarro nessa solidão. Volto para a cama, procuro um livro na cabeceira: tem uma bíblia pequena que eu ganhei de um amigo protestante. Será que a história está resumida? Tem outro livro, que eu parei na metade. Uma revista sobre celebridades. A revista é herança sua.

O livro?

Vou até a cozinha. Não estou com fome, mas também não estava com sono. Poderia trocar a pizza gelada por uma noite bem dormida? Sinto sua falta, Juliana, mas não quero dizer isso para ninguém. Escreveria um livro sobre minha mal escrita relação com você? Talvez mereçamos essa consideração. Um pedaço de pizza, um copo de água gelada. Quanto tempo eu não durmo direito? Vou até a sala, procuro algum filme interessante na estante: “Terceiro Tiro”, “Paciente Inglês” e “Zabriskie Point”. Confesso que não tive coragem de ficar com você, enquanto você assistia aos filmes. Dormi antes dos dez minutos. Sabe? Naquela época eu trabalhava muito, descansava pouco. Dormir em seus braços era uma coisa que me deixava vivo.

Somos antagônicos, muito diferentes. Mas ambos, hoje, tão igualmente solitários. Queria te ligar, mas você não vai me atender. Quer saber? Concordo que realmente o remédio é o tempo. Não que eu tenha qualquer esperança que voltaremos a formar um casal feliz. Esse negócio de tempo é uma grande bobagem, na maioria das vezes. Entendo; muitas vezes esse afastamento serve para colocar a cabeça no lugar, mas é terrível quando desalinha também o coração.  No sofá da sala, sem sono e sem fome; nada na televisão: nesse momento penso em você, mas penso diferente. Você não é mais aquela pessoa que eu amava,  e qualquer coisa que fizéssemos agora; seria um recomeçar do zero, um renascimento, que poderia vingar ou não. Seria como se fosse ter que apreender amar você novamente.

Quer saber? Acho que você está acordada pensando a mesma coisa que eu. Levanto do sofá, corajosamente. Você na cama ainda acordada. Você me viu cheio de febre, fome e abstinência? Odeio saber que você está ai, como se não estivesse. Vamos nos ajeitar? Senão vou embora para sempre. Eu seguro o seu ombro, olhamos um para o outro. Odeio quando você chora, odeio quando eu não consigo chorar. O que fizemos de nossas vidas? Onde estão nossos sonhos?  Nossos sonhos são tão distantes? Queria alguém para me acompanhar, quer alguém para assistir um misero filme. Vamos dormir? Eu te abraço, mas não consigo dormir.

De manhã: a vida como nunca. Tudo muito igual. Saímos juntos para o trabalho. Fico no meio do caminho, você segue adiante. Vamos almoçar juntos hoje? Eu não posso, tenho uma reunião; você não pode, tem uma desculpa tão real quanto a minha. Nós nos evitamos. Mas isso é fácil, de dia; quando nossa cabeça está cheia de problemas, resoluções e números. É fácil quando estamos com outras pessoas, pensando em outras coisas. Mas quando estamos juntos? Quando no quarto, você decide apagar a luz do abajur e não diz uma única palavra?

Ia perguntar se você tinha um cigarro, mas estamos longe novamente.

Postado por Sérgio Oliveira às 5:04 PM Nenhum comentário:
Marcadores: Aguarde-me com sorriso

segunda-feira, junho 27, 2016

Texto 1 – Fé ou Crença: Dois caminhos e duas medidas


Nunca é fácil falar sobre religião. Principalmente quando termos utilizados criam dúvidas. É certo que a língua é motivo de grandes discussões, até maiores que a própria definição dogmática. A Bíblia, por exemplo, sofre perseguição por causa de suas traduções e interpretações. E também por causa disso, acaba sendo utilizada para obter poder. Mas o assunto aqui não é a Bíblia, mas a interpretação de duas palavras específicas, que, embora pareçam sinônimas; podem representar situações antagônicas. As duas palavras são: crença e fé. Existe diferença entre as duas palavras? De um modo geral são utilizadas da mesma maneira. No entanto, gostaria de aplica-las de um modo diferente; utilizando-as para definição de uma situação religiosa, uma posição espiritual.
Talvez a conversa aqui se complicaria se estivesse em meio à céticos. A maioria das observações de agora em diante têm uma relação muito especial com a espiritualidade. Acreditar no mundo espiritual e sua contribuição à nossa evolução é fundamental para continuarem seguindo minhas palavras. Longe de ser uma obra mediúnica ditada em pormenores por espíritos superiores. A seguir apenas minha sondagem sobre o comportamento religioso e como podemos criar um parâmetro utilizando da palavra fé e crença.
Quando falamos de fé temos a ideia que não precisamos de qualquer explicação lógica. A fé é o sentimento de confiança em relação alguma coisa, dando-lhes o crédito de todas as situações de nossa existência. Fé é uma palavra que se origina do latim “fides”, que tem como significado: confiança, juramento, promessa e, pasmem, crença. Fé, portanto, também é crer. Do outro lado, a crença tem como origem latina a palavra ”credere”, que tem como significado acreditar e confiar. Crença e fé, então, remetem ao acreditar.
Paulo de Tarso, quando fala dá fé, diz de forma bem clara que a fé é acreditar em algo que não se pode comprovar, em algo incompreensível; mas que, no entanto, dá-nos absoluta certeza da existência . Assim, somente pela fé, podemos acreditar em Deus. E também por isso, inicia-se o distanciamento da ciência, que positiva, não abre mão da observação, comparação, repetição e análise. Não podemos, na vida espiritual, observar, comparar e repetir. Não há experimentação como é o caso da ciência. Por isso, para a ciência, o mundo espiritual não existe. Só existe para aquele que acreditar no poder comprovar pela fé. A fé não é observável.
Esse sentimento é fundamental para qualquer religião. Somente através da fé é que podemos nos enriquecer das opções que nos são dadas pela religião. A fé é algo poderoso, posto que nosso mestre Jesus de Nazaré nos colocou: (Mt 17:20) “Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível”. Já imaginou que força é capaz de mover uma montanha? Mas a frase tem um lado ainda mais impressionante, pois foi através da fé que Cristo e os seus auxiliares criaram o nosso Planeta Terra. Mais que transportar a montanha, o nosso governador planetário, pela sua fé em Deus, também fez surgir a montanha.
Então, quando falamos sobre a fé podemos compreender uma conexão desproporcional com Deus. Uma força incompreensível vinda do Criador, como uma centelha, uma fagulha; uma pequena participação no universo. Jesus ainda nos disse que nós éramos deuses e que se estivéssemos com Cristo, faríamos muito mais. E isso só é possível através da fé. A fé está a nosso favor, a fé sublime e indestrutível, pois está com Deus. A Fé e o Amor andam de mãos dadas, cada qual com sua contribuição para o espírito eterno.
A crença, todavia, não é como a fé. Embora tenha a relação nítida com a fé, a crença é uma opção humana, acreditando nas coisas espirituais ou não; embora sempre esteja ligada às coisas materiais. Cremos nas escrituras, nas figuras, na liturgia, nos dogmas; nas tradições e nas mais variadas formas de conduta religiosa. Essa conduta nos leva a Deus, portanto, conduz-nos a fé. Mas a crença pode ser enganosa, pode ser multifacetária, diferente da fé, que é única. Jesus nos disse, (Jo 1:11): “Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me credes, como crereis se vos falar das celestiais?”. Podemos interpretar: se vocês não acreditam nas coisas da matéria, como ter fé nas espirituais?. “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do Filho único de Deus”. Pois quem crê em Jesus, mas não tem fé, tem sua condenação.
Dentro dessa sugestão, da criação de uma definição diferente entre crença e fé, como podemos dizer qual é qual? Como saberemos a diferença? Por exemplo, muitas pessoas religiosas; que frequentam determinadas religiões, tem fé em determinados dogmas; e acreditam como verdadeiros. Não seria essa fé apenas uma crença? Em partes: os dogmas seriam dignos de fé se colaborarem com Deus, ou seja, ter uma relação divina. Um dogma, mesmo que pela fé, que corrompe a humanidade, distorce, subtraí, humilha, distancia; amargura e oprime a si mesmo, ou a outro humano; é apenas uma crença, pois parte do homem a confiança, não de Deus. A fé, ainda que tenha dogmas religiosos que nos parecem contraditórios, mas que trazem a bem-aventurança a todos os homens, é algo verdadeiro.
A maior parte das nossas vidas quando dizemos ter fé estamos apenas insuflando a crença. Mas fiquem tranquilos, a parte menor de nossas ações movidas pela fé são suficientes para todo o resto. Por exemplo, um ateu faz uma campanha para ajudar órfãos. Ele recolhe alimentos, roupas e brinquedos. Faz isso pois acha certo ajudar. Ele acredita e é agente da bondade. Mas faz isso por motivos que ele desconhece. Não crê em Deus, não crê na vida espiritual; e não faz nada aquilo pensando em recompensa. Não estaria ele, no modo operante da fé, trabalhando mais para Deus que o teísta imoral?
Isso nos traz uma discussão sobre a “sola fade”, que é um princípio protestante e católico da salvação. Escolha com sinceridade duas respostas, qual você acha mais valiosa: “Deus nos mandou Cristo e seu evangelho; salvando-nos, assim sou grato e serei uma pessoa que sempre fará o bem”. Ou a outra: “Deus nos mandou Cristo e seu evangelho para sermos pessoas gratas e boas para sermos salvas”. A primeira frase diz que Deus nos salvou a todos, por isso seremos bons. Na segunda Deus só nos salvará se formos boas. Esse princípio por duas religiões explica bem quando e como optarmos pela fé.
A fé é tudo na reforma íntima, com caráter individual, mas proporções universais. Não importa a crença que você propaga. Nem a religião que você assume, muito menos o templo que você frequenta; sem que em tudo isso exista a fé. Não importa a fé verdade que propaga, mas a bondade que você proporciona. Acreditar em algo, como em Deus, por exemplo, tendo a noção que ele não pode ser provado, é a mais absoluta e intransferível justificação pela fé. É por uma reforma íntima que se estabelece uma conduta de paz, amor, retidão e comunhão. É por Deus que trabalhamos na fé, não trabalhamos pela crença.
Sim, pois há uma diferença brutal entre crença e fé. Fé é unicamente a presença de Deus. A crença é a observação, como verdadeiras, todos os preceitos de uma doutrina ou dogmas. Por exemplo, posso crer no catolicismo, ser protestante ou umbandista. Mas crendo em todos eles, só haverá Deus se houver fé. Por isso sabiamente dizemos que não importa o caminho, mas se ele nos leva a Deus. Seguramente a presença da fé é mais importante que a multiplicação da crença. A fé em Deus é o pilar do ser humano espiritualizado, como a crença é muro para o ser humano religioso. A fé é invariavelmente divina, amorosa, correta, há uma comunhão com Deus, há o amor. A crença não remove montanhas, mesmo ela moralmente perfeita. A fé é amor, crença é paixão.
Já dissemos que a crença é o meio de se chegar à fé. Mas como saber se a crença está correta? Como saber se a nossa crença temporária poderá nos levar a fé eterna? Como imaginar a crença demarcada poderá abranger a fé no infinito? O amor é a resposta. O amor é a bússola. O amor é o maior sentimento de Deus. Ainda que eu tenha a fé, a ligação necessária com Deus; e não tiver amor; continuarei infrutífero. Como disse Paulo de Tarso: “E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria ”. A fé é a sensação da presença de Deus, o amor é o sentimento de Deus. Volto a dizer: Fé e Amor andando juntas nas revelações de Cristo.
Assim, podemos encerrar o assunto. Lembrando uma coisa importante: a interpretação é livre, a decisão também. Jamais uma opinião analítica pode ser tomada como doutrinária. Assim, não desrespeitando qualquer questão sobre crenças e fé, expostas exaustivamente nos meios religiosos, é seremos ainda mais felizes em nossas explanações. Tomar ao pé da letra aquilo que foi exposto nesse pequeno ensaio; como tomar ao pé da letra qualquer palavra que traga assuntos como Deus, fé, amor e esperança; é cair no erro de séculos, fazendo com que uma ideia, uma hermêutica qualquer de meia dúzia de palavras tenha mais importância doutrinária que milênios de estudos e discussões.
Apenas o amor pode ser o caminho, as decisões de incluir e não excluir. De entender Deus e não rejeitá-lo. Ouvir as mais diversas opiniões e não sermos intolerantes. Afinal de contas, fé ou crença; ainda que tenham o mesmo significado, não significam nada se não formos pessoas melhores para os outros e para Deus.
Postado por Sérgio Oliveira às 9:41 PM Um comentário:
Marcadores: Religare
Postagens mais recentes Postagens mais antigas Página inicial
Assinar: Postagens (Atom)

Pesquisar este blog

Marcadores

  • Aguarde-me com sorriso (7)
  • Cartas (34)
  • Contos (3)
  • Crônica (37)
  • Desconectado (28)
  • Dia (5)
  • Fragmentos (4)
  • Ft.Bol (7)
  • Letra de Música (2)
  • Livro das Relíquias (1)
  • Pandemia (11)
  • Poema (165)
  • PoliticaVoz (25)
  • Rápido (23)
  • Religare (18)
  • TOP10 (5)
  • Trecho Crônica do dia das Almas (17)
  • VozeCor (10)

Arquivo do blog

  • ▼  2020 (93)
    • ▼  outubro (2)
      • SÓ CRIANÇA ENTENDE
      • O RESTO DEIXO POR AÍ
    • ►  setembro (84)
    • ►  julho (1)
    • ►  abril (6)
  • ►  2019 (2)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (1)
  • ►  2018 (13)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  fevereiro (3)
  • ►  2017 (9)
    • ►  outubro (1)
    • ►  setembro (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  fevereiro (2)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2016 (14)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  outubro (3)
    • ►  agosto (1)
    • ►  junho (6)
    • ►  abril (2)
  • ►  2015 (13)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (2)
    • ►  setembro (2)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (2)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2014 (16)
    • ►  novembro (3)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (2)
    • ►  julho (2)
    • ►  abril (5)
    • ►  fevereiro (2)
  • ►  2013 (10)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (3)
    • ►  junho (2)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (1)
    • ►  fevereiro (1)
  • ►  2012 (10)
    • ►  outubro (1)
    • ►  junho (4)
    • ►  abril (1)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2011 (18)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  outubro (3)
    • ►  agosto (1)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (1)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (2)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2010 (12)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (1)
    • ►  março (6)
    • ►  fevereiro (2)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2009 (38)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (5)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (4)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (5)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (5)
    • ►  fevereiro (4)
  • ►  2008 (55)
    • ►  novembro (7)
    • ►  outubro (10)
    • ►  setembro (5)
    • ►  agosto (6)
    • ►  julho (1)
    • ►  junho (4)
    • ►  maio (6)
    • ►  abril (5)
    • ►  março (7)
    • ►  fevereiro (2)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2007 (68)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  outubro (2)
    • ►  setembro (3)
    • ►  agosto (6)
    • ►  julho (12)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (21)
    • ►  abril (9)
  • ►  2006 (10)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (2)
    • ►  julho (4)
    • ►  junho (3)
Protected by Copyscape Online Copyright Protection

Minha lista de blogs

  • GIM-TONICA
    Padre Animado
  • Patativa da Bola
    A rede social do Boteco
  • Voz e Cor
    Lembranças

Quem sou eu

Sérgio Oliveira
Incógnita?
Ver meu perfil completo

Seguidores

Tema Simples. Imagens de tema por luoman. Tecnologia do Blogger.