quinta-feira, abril 12, 2018

DESCONECTADO: La casa de papel: Bandido bom?


(Vou avisando de antemão: conto o final. Portanto, se você ainda não terminou a segunda parte da primeira temporada, não leia. Não leia também os comentários, se houver. Ignore-me e volte mais tarde). 

Bandido bom é bandido vivo. Pelo menos é nisso que pensamos em todos os capítulos da série La Casa de Papel. Ela é uma série dinâmica, divertida e com uma história muito bem construída. Tem lá sua cara de Breaking Bad e eu achei muitas coisas em comum. Ela também tem seus defeitos, como clichês latinos de amor e ódio; mas isso pouco importa. Torcemos muito pelos bandidos. Fico aqui imaginando em que momento nós, meros telespectadores, fomos enganados pelo Professor. Afinal de contas, ele consegue a opinião pública não só na ficção, mas do lado de cá, de quem assiste. Mensagem subliminar? Da mais alta categoria. Torcemos pelos bandidos, por suas histórias sofridas, por seus repentes de paixão. Torcemos em todos os momentos, até quando estão errados. Torcemos para que um deles, qualquer um dos bandidos, num momento de fúria, matasse o Arturo. Arturo, o Refém. 

A história toda nos leva a isso: os bandidos são os mocinhos. E quando paira a dúvida sobre quem está certo, o Professor nos faz mudar de ideia mais uma vez. Faz a mocinha mudar de lado. Não estamos roubando, estamos imprimindo dinheiro dentro da casa da moeda, esse é o resumo de sua moral. Parece tão certo que dá tudo certo. Para o assalto, o Professor reúne alguns bandidos. Eles não se conhecem e é preferível que não tenham nenhum vínculo pessoal. Hipótese que ele mesmo destrói, apaixonando-se por quem deveria investiga-lo. Então, os bandidos recebem pseudônimos: Tókio, Moscou, Rio, Berlim e assim por diante: temos uma completa novela, com a ninfeta fatal, o nerd bonzinho, o malandro ingênuo, o pai protetor e amoroso, vilão psicopata e simpático, mãe desesperada, mulher fragilizada, mulher traída, adolescente mimada e o homem infiel. Tudo isso trancado dentro da casa da moeda, por bandidos armados com a máscara de Dali; e tudo ali parece mesmo ser tão surreal.

Com o passar do tempo o que era formal no roubo vai embora, isso era a única coisa que o Professor não conseguiu antecipar em seu plano: a nossa habilidade desastrosa em alguns relacionamentos. Pouco a pouco todos foram se envolvendo, torcendo um pelo outro; querendo esganar o parceiro, mesmo sabendo que ele era essencial para que o plano desse certo. Duas figuras principais motivados por um passado político: Berlim e Professor amigos de longa data emocionados com o Bella Ciao que incrementa ainda mais nosso imaginário sobre serem os bandidos os mocinhos: eles resistem nesse mundo capitalista. Professor, o Bem. Berlim, o Mal: o antagonismo de quem pensa ser frio e calculista combatendo aquele que se acha explosivo e irracional. Eles trocam esse papel todos os instantes, tanto que Berlim joga seu amor na cova dos Leões, o Professor promete resgatar a princesa encantada; ora o racional sendo emotivo, o explosivo virando racional.

A verdade é que os bandidos vão se humanizando, os personagens vão se desnudando, ou seja, mostrando seu lado verdadeiro e sofrido. Com o tempo os apelidos de alguns deles são trocados pelo nome verdadeiro: a farsa não existe mais, eles estão dentro da Casa das Moedas mostrando a verdadeira identidade. Ficamos íntimos, ficamos amigos. Na história a opinião pública, ainda que a informação seja vaga, torce pelos bandidos. E eles vão conseguindo o que querem. Enquanto as máquinas imprimem o dinheiro, em nossa cabeça imaginamos: o que eu faria se tivesse uma parte dessa grana? E se fosse para mim a proposta: passar a linha marcada com giz e ser livre ou não atrapalhar os bandidos e ganhar uma grana? O amor, verdade, ética são colocadas em nossa frente, como estampando nosso caráter mais escondido ou inibido. No lugar deles, ajudaria os bandidos?

Não basta para o Professor a decisão de torcer por eles, a história nos coloca no meio de uma questão ética valiosíssima: fazer o certo por meios tortos é errado? Teoria da convicção e da responsabilidade. Fazer o certo sempre, de acordo com as regras. Ou fazer o certo quebrando as regras? O Professor acha que está certo, pois vê na regra uma falha, um erro; o comportamento das grandes instituições que fazem o mesmo, imprimindo dinheiro para capitalizar o mercado. Eu não estou roubando, estou imprimindo o dinheiro, tanto quanto outros já fizeram: essa é a chave de braço na investigadora, nessa hora ela vê o lado certo é o lado que convém, sempre.

Enfim, é uma história que vale a pena. Embora intimamente preferiria que acabasse ali, naquele encontro num paraíso qualquer do mundo. Acabasse ali e ficássemos na dúvida sobre o que os bandidos fizeram com tanto dinheiro. Mas, não. A história que tem começo, meio e fim; tem o seu desenrolar em uma suposta sequência, que possivelmente irá responder muitas perguntas. Será que as pessoas que não ultrapassaram a linha de giz no chão receberão o seu quinhão? Será que escolhi o lado certo? E você, que lado escolheu? Bandido bom é bandido que não rouba, mas engana o sistema? Pelo menos nesse caso, estávamos torcendo para que todos saíssem vivos.


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quinta-feira, abril 05, 2018

I - Desconstrução dos Novos Poemas



Farei agora um histórico do desapontamento
das palavras que disse em qualquer momento.
De sumir, de repente, como se não fosse nada;
esquecido significado de cada palavra ignorada.
Serão assim, infrutíferos, velhos poemas novos
que há tempos deixaram os fingidos tormentos
de poetizar qualquer dor em vastos sofrimentos.
Se fiz poemas necessários para alguns aplausos,
recordo nenhum ser digno de alguma piedade.
Não marcaram época e nem tampouco saudade.

Pois, os poemas não foram por mim expostos
como quem tem a felicidade uma incapacidade.
Nasceram como nascem plantas e montanhas,
no deserto de uma imaginação, nascem mortos;
nascem, poemas, como som numa noite qualquer
que gera gritos e uivos indecifráveis nas entranhas
pedindo socorro para quem nasceu para morrer.
Assim, de hoje, os poemas viverão sua mocidade
em construir fantasias no instante de uma paixão,
mas dessa fortaleza uma inevitável desconstrução.

Poemas não se fixarão no futuro que desejarem,
mas nas lembranças de um dia desaparecerem.





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sábado, fevereiro 24, 2018

Já cultivou seu lado positivo hoje?


Minha reflexão de hoje começou com um daqueles exercícios que geralmente fazemos no final do ano ou quando algo importante acontece em nossa vida e precisamos de uma explicação não sobre o mundo, mas sobre quem nós somos. Aquela lista onde colocamos nossos desejos para o próximo ano, o nosso objetivo. Um desses exercícios é colocar numa lista os pontos positivos e negativos de nossa personalidade, aqueles que pretendemos corrigir ou fomentar durante o ano. Não raro há maior dificuldade em relatar em nós o quê há de melhor. Muitas vezes precisamos que o outro nos diga o que existe de bom, como se sofrêssemos de uma incapacidade de um autoconhecimento. Imagine uma criança ouvindo uma questão como essa: Relate os seus pontos positivos e negativos. A criança não vai titubear em responder ingenuamente que ela é bonita, educada e inteligente. Em que ponto da nossa existência deixamos de nos olhar e encontrar os pontos positivos? Também para a criança uma percepção menos aguda em relação aos pontos negativos: ela nunca sabe seus defeitos se ninguém os disser.

A maturidade traz essa consequência: começamos a ouvir nossos mais íntimos pensamentos que nos faz refletir o nosso lado mais perverso. Na verdade a palavra não é bem essa, mas nosso lado mais degradador. Ter pontos negativos só condecora ainda mais o pensamento de que o homem é um ser em evolução, ou seja, incompleto. Identificar o lado negativo é tão importante para o nosso desenvolvimento que muitas vezes nos prendemos a ele de tal forma que nos esquecemos que também que em nós existem coisas positivas. Sabe aquela coisa cena que relatei agora sobre a criança não titubeia em relatar seus pontos positivos? Faça o mesmo, mesmo que internamente. Faça o mesmo agora, quando acordar e em todos os instantes de sua vida. Suprimir os aspectos positivos é tão nocivo ao nosso desenvolvimento quanto estacionar indiferente em nossas características negativas. Portanto, há de se compreender que esse movimento de equilíbrio passa por uma total consciência das consequências negativas que o mal causa, tanto em nós como aos outros. E nesse exercício ter bases fortalecidas nos aspectos positivos é essencial para trabalharmos por uma correção.

Na relação que eu fiz dos meus pontos positivos e negativos, descobri que alguns deles têm uma medida muito próxima entre o certo e errado. Aquela coisa: remédio demais vira veneno. Um exemplo: descobri que sou ansioso, pois antecipo muitas vezes problemas e sofro por eles. Não há nada extraordinário na ansiedade, pois ela é um sentimento humano. Quando excessiva cria uma paralisia, um descontrole e um autocrítica fora do normal. Por outro lado, um grau de ansiedade satisfatório nos faz lidar melhor com os desafios da vida, criando um situação adequada a um estado de prontidão. Ansiedade não é boa, nem ruim. mas a medida que damos a ela é o tamanho que ela irá nos consumir. Gosto muito de uma passagem em Lucas: “São os teus olhos a luz do teu corpo; se teus olhos forem humildes, todo o teu corpo será cheio de luz. Porém, se teus olhos forem malignos, todo o teu corpo estará tomado pelas trevas”. O jeito que encaramos nossas perfeições e imperfeições pode ser um caminho importante para a evolução espiritual.

Então a medida que damos às coisas é essencial. Quando a importância é dada a determinado assunto, que ele se molda no formato que quisermos. Pode ser tão grande que não caberá na sala. Tomando todos os pensamentos e ações, torna-se-á o limite do seu propósito. O tamanho será suficiente para sufocar ou libertar. O ódio, por exemplo, expandido na medida incerta tornará também incerta as consequências. Pode-se odiar no extremo das coisas, pois a medida é injusta. No amor, em compensação, a justeza só oprime a expansão de um bem-estar, trazendo consigo uma desrespeitosa condição da humanidade divina. Assim, a medida do ódio que menor seja para que menor atinja e a medida do amor que maior compreenda para que tudo reflita.

O ágape não pode ter medida, pois viverá injusto em sua fronteira. A medida que dá a cada coisa determina o quanto será medido por ela. Seus olhos medirão as vantagens dos pontos positivos e autocríticas dos negativos.

Mais uma vítima da Depressão


Não dá para entender o motivo de um suicídio, pois ele não carrega consigo uma única resposta. É uma doença, sim. Que tem lá seus desafetos com tudo que existe no mundo, inclusive o depressivo está em constante guerra consigo mesmo, e quase sempre pensa ter perdido a batalha. Não é fácil, por isso tem feito números alarmantes em todo o planeta. Ricos, pobres, moços, novos, mulheres, homossexuais, jogador de futebol, artista, advogado e lixeiro. A depressão silenciosa dá sinais de sua plenitude todos os momentos, mas muitas vezes nós a ignoramos. Só quem passou, ou passa por ela, sabe o sacrifício que é encontrar motivação num mundo em que a própria pessoa se encontra tão deslocada. Problemas todos nós temos: em família, no emprego, com amigos e com os pais. Problemas sempre existiram, desde que o homem decidiu que era um ser pensante, que podia sentir; e principalmente, quando soube que era um ser mortal. O único ser existente no mundo que sabe que um dia irá partir é o homem, por isso já carrega consigo uma carga enorme de responsabilidade: a responsabilidade de aproveitar, de ter que dar certo e de algum modo ser feliz.
Esse desencontro da vida acontece com todo mundo, mas para o depressivo é algo de enorme importância, pois é a única resposta que ele encontra quando olha para a vida, a de que ele não tem forças para enfrentá-la. E muitas vezes é nesse silêncio que a alma agoniza. É nas lembranças pretéritas que vê sua chance de ajeitar as coisas indo embora. Sim, o depressivo precisa participar da vida dos outros e quer que participem da dele. Ele quer sair do buraco, daquele lugar que nem é escuro e nem é claro: é um lugar do tanto faz. A pessoa morna é o depressivo, que nem quente, nem frio; nem sereno, nem despirocado. É dele a história, ninguém tem culpa, mas todos podem ajudar. É para isso que exercitamos a compaixão, a empatia; determinar que o outro nem sempre é auto-suficiente, pois de alguma forma, por diversas questões essa suficiência não é o bastante. Precisamos ajudar para que ele se ajude.
O depressivo precisa de uma mão amiga, mas precisa de suas próprias pernas para caminhar. Venha, segue-me, disse um dos nossos mestres mais importantes no planeta. Em apocalipse, 3:15-16 então João nos diz: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”. Precisamos fazer a coisa com amor, mesmo sem forças, fazer por amor ao outro, por amor a nós mesmos, fazer o amor lavar uma multidão de sofredores (pecados), como nos disse Paulo de Tarso. Não deixem passar a chance de amar-se, amando também o outro em sua intimidade. A intimidade de abraçar, saber como esta, se importar, comer uma pizza junto. Mas que com tudo isso, não menospreze a intimidade que diz “pode contar comigo, pois estarei ao seu lado para ajudar-lhe em tudo que for preciso”. Essa intimidade que estabelece que a vida espiritual, social e a saúde mental não pode ser deixada de lado nos menores silêncios de um depressivo.
Por isso a vida é difícil, pois muitas vezes aprendemos quando parece ser tarde para ajudar alguém. Achamos que o problema não é nosso, já que muitas vezes é um problema desconhecido, enigmático; cheio de nomenclaturas que nos fazem dimensionar a questão como algo novo, das trilhas modernas de um mundo que parece estar cada dia mais perto do caos. Não, não é algo novo, nem algo infindável; mas pode ser, por nosso esforço algo controlável. Que tenhamos forças para trabalhar pelos nossos amigos que por algum motivo estejam enfrentando problemas sérios com a depressão, ou que, na nossa incompreensão sejamos ainda auxiliares em orações e pensamentos positivos para que encontrem a paz no coração e a força na alma.
É uma frase óbvia: Junto ninguém se sentirá sozinho.

sábado, fevereiro 17, 2018

Ondas


Do silêncio que não pode existir, posto que a vida flui, em odores, sentimentos, frases e chamados. Eis que a intenção do dia, impôs calar-se para ouvir-se o menor e o maior propósito de acordar. Sentar-se diante o mar, e ondas, que ficam a movimentar a linha do horizonte onde não podemos sequer pensar em nos aproximar: É Deus movimentando os braços? E o silêncio que não é passividade, mas um empurrão do tempo, que nos tira de uma areia movediça, que não se move, mas engole, e nos atraí, para uma mesmice da sequência do momento de acordar. Sentar-se diante do céu, e nuvens, que ficam a estagnar essa imagem do horizonte que não podemos sequer pensar em nos aproximar: Estaria um Deus tão distante?


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sexta-feira, outubro 06, 2017

DESCONECTADO: Toda nudez será castigada?


O símbolo do homem em suas partes íntimas expostas e impostas. Um homem nu representando a liberdade. Ao mesmo tempo representa todo o sacrifício do julgamento. O que o observador fará ao homem nu quando estiver em sua frente? Um homem sem identidade, nome ou documento. Um homem sem dinheiro. Um homem disposto para quem quiser. Aquele homem representa o mapeamento de nossa intimidade em tempos digitais. Nunca estivemos tão públicos como nos tempos atuais. O homem, simbolicamente, através da arte, representa um pai, um irmão; mãe, tia, amigo e inimigo. Como julgaremos o homem que revela sua depressão? Como julgaremos a mulher em seu transtorno alimentar? Como olharemos a criança em seus transtornos?
O homem indefeso em sua nudez também é visto como homem armado em sua sexualidade. Tudo depende de como o observador vê o objeto. A arte, que é essa capacidade do homem em se projetar no mundo, deve criar na humanidade a exploração do anormal. A beleza está em que ponto a arte consegue atingir o seu objetivo ou apenas ser ignorado em sua trivialidade. Nesse aspecto o homem nu é belo, simples e consequentemente agressivo. O nu é o nascimento, assim repleto de inocência. O nu pode representar momentos antes do ato sexual, é a chave da malícia. O nu pode ser crime dentro do contexto, pode ser subversão na análise moral; pode ser êxtase no relacionamento romântico.
Apenas nesse aspecto, defendo a apresentação. Tudo aquilo que se pode ver diante a arte, quando não há mais nenhum observador que possa julgar a beleza da apresentação, ou sua repulsa; é condenável. Uma criança inserida num contexto onde a nudez, dentro da intimidade da família é algo natural, poderá ver beleza ou não no homem nu, embora possa não propiciar uma análise crítica que é o objetivo principal da obra. E a criança que não está enquadrada nesse modelo de natureza, beleza, nu, inocência, liberdade e normalidade; pode apenas ficar abismada, ou traumatizada pelo lado bom ou ruim. Em ambos casos a presença de uma criança numa amostra, através da nudez de um homem, numa interação com um símbolo que tenta traduzir nossa nudez não literal; é de alguma forma inútil, ou ainda pior, desfavorável.
Nesse meio termo eu fiquei pensando numa frase do Novo Testamento que, reflete em cheio aquilo que penso sobre o acontecimento. “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém”, disse Paulo de Tarso em sua carta aos Coríntios. Um homem nu pode, considerando que na arte não existe o certo ou errado. Um homem nu que pode expor nossa fragilidade, pode. Um homem em sua inércia esperando pelo atrito moral, julgador; realista, psicótico; traumático do observador, pode. Um homem nu que idealiza nossa vontade em romper com um mundo cheio de astúcia, pode. Um home nu que pode representar ser satirizado pelo observador, como quem vê no homem nu a degradação do homem, pode.
Mas dentro de todos os elementos, e observando o próprio contexto de arte; a presença de alguém que pode não discernir o mundo real de um mundo projetado pela arte, que no caso é a criança, isso não pode ter; não convém. Pode ser libertador, pode ser vanguardista; quem sabe até idealista essa vontade de acabar com um mundo cheio de artimanhas de condenação, mostrando para a criança que é comum, bela e virtuosa a nudez, mas ainda assim não pode. Não poder não é falta da liberdade artística, mas colocá-la dentro do seu lugar, pelo contexto e finalidade. O homem nu poderá não representar nada para a criança, pois ali não é um homem nu, mas uma metáfora. Qual a finalidade da arte que não é revelar?
Não condeno o artista e é muitíssimo provável que sua performance não tenha qualquer relação com essa depravação que andam pintando os puritanos. Mas considero negativa a presença de uma criança, consciente ou não da nudez, numa exposição que pretende chocar o homem através da própria privação humana. O homem pode olhar-se nu, sabendo que seus instintos estão descobertos; pode desvelar o seu medo da derrota, de ser um perdedor (não possui nada, nem dinheiro, comida e etc.). Pode descobrir seu lado perverso e libidinoso. Só não sei até que ponto pode ser proveitoso para uma criança.




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sexta-feira, setembro 29, 2017

DESCONECTADO: Família moderna e a felicidade


Não existe mais álbum de família. Não existe mais quem queira colocar na parede da sala o retrato de toda a família, exibindo-o como uma espécie de troféu. A família feliz que sempre sorri nas fotos. As pessoas sorriam, pois era proibido não sorrir. Na escala entre pais, filhos, netos, bisnetos; tios e tias, alguns nem se conheciam. Outros nem se falavam; alguns se suportavam. No entanto, naquele retrato de família populosa, as pessoas conviviam, interagiam; e nessa convivência aprendiam. A família que parecia feliz, mas nem sempre era, tinha como objetivo moldar o ser humano para uma escala maior, que era sua própria projeção na sociedade.
Famílias numerosas são pouquíssimas. Estão beirando a extinção. Uma festa de Natal nos dias de hoje com mais de cinquenta pessoas é uma benção. Uma providência divina e não do acaso. A maioria hoje vive num convívio minguado. Festas, casamentos; primeiro ano do filho. Uma ruina numérica da família. Cada vez mais as pessoas pensam no menos; vivendo subgrupos familiares. Questões econômicas, sociais ou até religiosas dispersaram as famílias.
Bom ou ruim, ainda não sabemos. A única certeza que podemos ter é que a família mudou. Ela não obedece aos paradigmas de trinta ou quarenta anos. A relação entre pai e filho é uma incógnita que até hoje está sendo analisada pelos especialistas da área. A relação amorosa idem. Saímos de um contexto grandioso e idolatra; onde a família era o centro de tudo; para um modelo solitário e realista. Hoje as pessoas são mais egoístas, embora sejam mais benevolentes e a solidárias (que parece ser algo muito contraditório). O crescimento das ONGs demonstram isso. Muitos jovens, solteiros, com ascensão profissional usam parte do seu tempo livre para a caridade. Pessoas realistas, mas que não deixam de sonhar com um idealismo humanitário. A família pode estar reduzida a um único individuo solitário e realista, mas que não deixa de idealizar na solidariedade um bem maior e comum.
Tenho dúvidas sobre o quanto essa metamorfose no convívio familiar está sendo ignorada pelo plano espiritual. Crer que essa mudança é desprezada pelos espíritos superiores é acreditar também que nossa vida, de uma maneira geral, é baseada numa desordem gigantesca. Lembro-me da frase célebre de que Deus não joga dados, explicando que nada no mundo é ao acaso. Consequentemente, de todas as situações, boas ou ruins, se tira alguma solução para a evolução humana. Assim, crer que a inexistência de uma família numerosa é motivo para o motim social que vivemos é acreditar que o plano divino não tem completo conhecimento de nossas necessidades, o que para mim parece inverossímil.
As famílias mudaram e ignorar essa nova perspectiva é ditar uma regra obsoleta. As famílias hoje são mais felizes, pois criam melhores condições para uma intimidade que não se via em nenhum álbum de família. Pais falando sobre sexo com os filhos. Filhos falando sobre os medos e as angustias com os pais. Ambos conversando sobre as drogas. Engana-se, portanto, quem acredita que as famílias do passado traziam mais oportunidades que as famílias atuais, embora menos numerosas. Engana-se também quem acredita que a família seja apenas consanguinidade; ignorando os laços afetivos que construímos durante nossa existência.
A discussão não deveria ser nostálgica, colocando a família do passado num pedestal e ignorando a conjuntura da família contemporânea. A discussão é o quanto a ausência de uma família pode ser prejudicial à evolução de uma criatura. O quanto essa ausência delimita conhecimentos sobre religião, ética e cultura. Não importa mais o modelo de família, importa como essa relação familiar nos constrói para um convívio mais amplo. Dessa forma, uma ou outra, grande ou pequena; com laços de sangue ou não; todas têm um objetivo do plano superior: a nossa evolução. E só evoluímos pela atração e fortalecimento naquilo que é correto e pelo atrito e correção naquilo que consideramos indigno. A família nos atraí e nos repulsa em muitos momentos, só assim não estacionamentos em nossa trajetória evolutiva.


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terça-feira, abril 11, 2017

MUNDO QUE EU VIVO


Tudo anda tão doente,
que, às vezes,
acho que só por esperança,
vivemos.
Todo mundo sem sono,
numa insônia inconsequente;
que prefiro achar que só é doença.
Tudo tão doente,
parado na porta de casa;
com armas em punho,
esperando um vacilo qualquer.
Todos doentes, defendendo os doentes,
como certo fosse andar tão doente.
E defendem a doença com unhas e dentes.
impõem ao outro suas verdades,
vermes e bactérias
de um pensamento doente.
E querem o fim da doença,
torcendo pela doença,
desejando o fim do mundo.
Tudo tão doente nesse mundo
que eu prefiro nem ter esperança.
Esperamos?





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domingo, abril 09, 2017

ANTES DE MAIS NADA


Não queira pedir aquilo que lhe devo.
Posso ser melhor que tem cobrado:
Nas páginas, um personagem desqualificado.
Ou nos versos livres, um iletrado.
No vício, um descontrole moderado,
Viciado nas entrelinhas, inveterado.
Mas posso ser pior daquilo que lhe mostro.
Não queira pedir aquilo que não mereço:
Um personagem descontrolado no vício,
Nas entrelinhas, o inveterado verso,
Um iletrado, viciado e descontrolado.
Nas páginas livres um desqualificado.
Mas se quer isso mesmo, sem tirar,
Estou eu aqui na meia verdade, inteiro.
Sem ódio ou amor, apenas parte da história.
Se quer mesmo nossa história, que inteiro,
O amor que se transforme do ódio,
Na verdade completa que partimos ao meio.

quarta-feira, março 15, 2017

POLITICAVOZ: Pior que está, fica



Hoje é um dia de caos. Mas quer saber a verdade? É pouco. Fizemos muito mais por causa de vinte centavos. Fizemos muito mais quando nos disseram que um partido era responsável por toda a corrupção do país. Fizemos muito mais quando nos disseram que devíamos sair às ruas por causa de uma irregularidade no Governo Dilma (que não incluía, pasmem, o vice). Fazemos mais quando nos mandam fazer. Então, agora, com o fim dos direitos, deveríamos fazer muito mais.

Sou favorável a Reforma Previdenciária. Se estão dizendo que o cálculo não bate, concordo e acredito (embora intimamente acredite que não seja bem assim). Sou favorável à uma ampla e irrestrita modificação em todo o processo previdenciário. Mas o quê entendemos como aposentados? Aposentados são todos os trabalhadores? Em partes, alguns trabalhadores têm direitos outros privilégios. Fim aos privilégios com a Reforma Previdenciária. O fim dos privilégios é mais importante, justo e rentável que o fim dos direitos*. Sim, o cálculo não bate, e não bate porque alguns recebem muito tendo contribuído pouquíssimo. Concordam? Então, estamos fazendo pouco ao não se unir aos motoristas, metroviários e afins, parando o país.

Outra coisa importantíssima que o Governo atual não coloca em conta: falta de vontade ou jogo político ao evitar a negociação das dívidas bilionárias das empresas com a previdência. Sim, meus caros amigos, nós, trabalhadores normais, vamos pagar com trabalho aquilo que empresas ricas, poderosas e gigantescas deixaram de pagar em dinheiro. Mas tudo bem, nós aceitamos com bom grado, pois não gostamos de briga, nem gostamos de discussão política.

Hoje é dia de caos, mas é pouco. Pouco pelo tanto que somos enganados, pelo tanto que nos roubam diariamente (e eu queria tanto que todo esse roubo fosse coisa do Partido dos Trabalhadores, pois seria mais fácil sanar esse terrível câncer da nossa estrutura política e econômica). Mas, para falar a verdade, acho que o castigo é pouco... Depois que nossa máxima política passou a ser "pior que está não fica", dita por um personagem palhaço; nada mais antítese para o eleitor que discute política sem gostar, vota em político pensando que não é; pensa no bem público do próprio umbigo...